quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A minha querida Rainha de Espadas


A Rainha de Espadas

Andre Kadanr



"Liberdade é pouco, o que eu almejo ainda não tem nome"

(Clarice Linspector)



   Rainha de Espadas de Alimomo


        É com muito orgulho, que escrevo sobre o perfil de uma mulher que marcou minha vida! Cleusa Rosa Soares, foi primeiramente, filha de Marieta Rosa Soares, uma mulher íntegra do interior do Rio de Janeiro, que apaixonada por seu namorado, Barulho Soares, foi raptada à cavalo e trazida para a cidade do Rio.
Mãe aos seus dezessete anos de idade, enfermeira, líder comunitária, uma espécie de "sacerdotisa cristã", que desde cedo, manteve sua fé e imponência em livrar as mentes assoladas por "demônios", ou seja, cultos de libertação. Cuidou de inúmeras crianças de rua em sua própria casa, os educou e os entregou ao serviço militar sem o menor apego. A única coisa perceptível era seu orgulho em contar seus feitos e criticar a sociedade por tanta falta de solidariedade.
Criou seus sete filhos às custas da loucura dos pacientes do Hospital Psiquiátrico de Jurujuba de Niterói. Nunca foi aquela mãe que meus tios gostariam de ter, mas uma perfeita avó.
        Cleusa, descendente de portugueses e italianos, era uma mulher muito bonita, com cabelos lisos e muito fino, com um testa pequena, mas bem desenhada e com entradas, como se fosse um homem, porém, jamais teve aparência masculinizada.


Joana D'arck


        Dona de um temperamento analítico e sagaz, crítico e indomável era capaz de de manter a atenção de todos em seus discursos, era chegada a falar - isso era mesmo. Não suportava mentira. Tinha verdadeiro orgulho em ir às urnas votar e falar em política, como criticava a politica! Falava o Português e era apaixonada por línguas estrangeiras. Aliás, um de seus grandes sonho era ser poliglota. Aprendeu um pouco de Alemão em casa, com um dicionário que era de seu avô Barulho, à quem ela tinha total adoração. Um de seus lemas era: “Manda quem pode e obedece quem tem juízo!”, ditado popular passado por seu avô.

        Dona Cleusa, assim era conhecida a minha Rainha de Espadas particular e não pensem que era um doce de mulher, muito pelo contrário, era temida por todos do bairro e por “bocas miúdas”. Bem, à miúde, chamavam-na de “Dona Encrenca”. Sim, ela era a Senhora dos Desaforos, não falava com quase ninguém do bairro. Onde havia uma confusão, lá estava ela pronta para tomar as dores alheias e, acabar tomando para si a causa e, virar A heroína com autoridade na situação. Lembro-me, de um dia que, um vizinho veio às pressas para me contar que tinha a encontrado dando uma lição de moral em um assaltante em pleno centro da cidade. Quando tinha algo em mente era uma águia para executar seu raciocínio rápido e lógico. Manipuladora a todo vapor, não sossegava enquanto tudo estivesse em perfeita ordem e conforme sua vontade, mesmo que para isso, tivesse que sacrificar outros ao seu redor.
        Piedade nunca foi sua virtude, sempre preferiu a justiça, mesmo que a sua própria.


                                               Marie Curie



Ela, a Rainha de Espadas, amou isso com certeza, mas um único homem chamado, José Rodriguez Soarez, meu avô, no entanto esse amor durou o tempo do primeiro e segundo filho, meu pai Murilo Rodriguez, o primeiro e, minha tia Marília, que aos seus doze anos de meu pai, ela viveu a separação e o abandono de meu avô, que literalmente, foi viver um grande amor. Depois da separação minha Rainha de Espadas, ficou de luto e como era dotada de um lealdade inabalável, ficou inconformada pela falta de consideração por parte de meu avô. Ela sempre respondia as amigas com um tom de ranger de dentes, “Não sou viúva, mas estou de luto!”. Luto por um marido, sim, marido, pois ele nunca voltou, nem para fazer a separação legal.
        Ela, minha Rainha de Espadas, depois de 8 anos casou-se com Pedro Pereira, um Pastor, mulato, formado em Teologia na cidade de Niterói/RJ. Com ele, teve cinco filhos, contudo, ela sempre foi a Chefe da casa e quem ditava às ordens. Pedro, era adorado pelos filhos e, ela, era tida bom a Bruxa Rabugenta, que torturava os filhos. O segundo casamento, sempre foi assolado pelo fantasma de José Rodriguez, o seu grande e eterno amor, que até então, para ela ele foi o perfeito homem de sua vida, nunca ouvi ela falar nada além de elogios a respeito de meu avô.



                                                                         Maria Quitéria




        Depois de 15 anos de casamento com seu segundo marido, a loucura bate à sua porta. Pedro surta e, desenvolve turbeculose. Sua vida de esposa, passa para ser de "mãe" novamente. Acostumada com a loucura, ela tratou de sua doença até a sua morte, que durou 13 meses.
        Passou então a manter sua família com seu trabalho e suor do Hospital. Os filhos, nessa época, ficavam com minha adorável bisavó, Marieta, que até o dia de sua sua morte, todos da família a chamava de Mãe. E, minha Rainha de Espadas, era chamada de Mãe Cleusa. Nunca, nem eu e nem ninguém conseguiu fazer uma festa para ela de comemoração de aniversario, simplesmente porque ela saia de casa para ver as amigas e, quando voltava, justificava-se dizendo "detestar festas de aniversário". Nunca acreditei que ela fosse ver as amigas - para mim ela passava só, viajando por aí à fora. Tinha paixão por viagens, e sempre, fazia amigos, que nós da família não conhecíamos. De vez enquando, era comum eu atender telefonemas de pessoas que eu nunca tinha visto e vê-la falar por horas no telefone - todos ficávamos com aquela cara de curiosidade, olhando um para o outro.
        Aos seus sessenta anos, sua memória, personalidade e caráter foi se perdendo, àquela mulher, autoritária deu-se lugar ao esquecimento, agora uma velha amiga e companheira, se faz presente em sua vida, o Mau de Alzheimer. E, aos sessenta e seis, ela nos deixa, por complicações de sua doença.



                                                                     Rainha de Espadas   Shirl Sazynski

Com minha avó, aprendi muita coisa, aprendi a ser resistente e a não ter medo de conflitos.
Aprendi que não precisa usar máscaras para viver, ser autêntico é a melhor opção e a mais justa comigo mesmo.
Independência é fato e necessidade fisiológica.
Aprendi a ser frio quando e necessário e ser caloroso quando é propício.
Aprendi que amor é algo valoroso e que apesar de tantos desenganos, cada uma ama a sua mameira e espaço interno.
Aprendi a racionalizar minhas emoções e ser cruel para a crueldade. Aprendi que perdão não existe, até que me paguem o dano causado, mesmo que com o tempo e o esquecimento.
Aprendi que obediência e servidão é aprisionamento de alma.
Aprendi que Rainhas de Espadas não são viúvas, apenas estão de luto por sociedade morta e sem coragem de dar a cara a tapa e assumir as consequências de seus atos.

Fico por aqui, com minha Rainha de Espada e seu corte que nunca, nunca cicatriza...


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O complexo Rei de Espadas


O “Complexo” do Rei de Espadas


André Kadanr



Do Imaginário nasce tanta riqueza de informação que ultrapassa o sagrado Mito e nos toma como um complexo medonho – ou uma verdade provisória – quase como um segredo. Através do simbolismo que será mostrado no Arcano Rei de Espadas, podemos reconhecer os verdadeiros movimentos escondidos ou, quem sabe, velados. Os convido a destelhar ou tirar sua armadura, para olhar dentro de cada pessoa que assuma uma postura de Ordem Social perante sua cultura.
Quem é esta figura emblemática que assume uma condição aparentemente rígida e segura? Ele, este homem complexo – Rei de Espadas – sempre engajado nas causas sociais, defensor ferrenho da ordem, da moral e, também, do Direito. E não se enganem, pois este homem sabe fazer acontecer seus pensamentos agudos como o fio de uma lâmina. Dotado de uma perspicácia alucinante, é capaz de dominar todos os pensamentos “fundantes” da lógica da mente. Com um pensamento rápido e crítico ele se impõe e se destaca por um brilhantismo que beira a perfeição racional, por se tratar de um representante da parte masculina do ar. Ou seja, isso o garante tremenda força na razão. E escrever sobre este Arcano me ocorre como um grito de misericórdia, um poema de Álvaro de Campos, “Ultimatum” (1917), declamado por Maria Bethânia, que ainda, nos dias de hoje, as palavras atuam de maneira eficaz. Contudo, tomo o poema como uma aclamação do Rei de Espadas aos seus representantes:



Destelhando seu reinado personificado


Figura 1: Tarô The Old Path

Em minha experiência como tarólogo, pude encontrar várias pessoas que depois de um papo me confessavam que suas infâncias foram bem turbulentas. Cresceram num ambiente familiar de fundamentalistas, de guerras declaradas, religião e carreira militar. Se caso não houvesse a carreira militar – mesmo sendo o sonho da família – permanecia o desejo de seguir a carreira, mas sempre em um ambiente diplomático, do tipo “Cuidado! Olha as crianças”. Com isso tiveram que despertar precocemente suas faculdades mentais de entendimento do que está por trás das aparências sociais.
A infância desta criança Rei de Espadas, falante sem ser tagarela, entra sempre com a lucidez e com o pensamento claro e lógico. Durante a adolescência pode ser tachado como o “intelectual” e “frio”, o “distanciado” de tudo que atua como perverso. Transgredir para ele seria como um divertimento, apenas para sentir o impacto que isso causa. E, também, para experenciar como as leis sociais são tolerantes. Reis de Espadas são atraídos por arte que expressa o poder da mente e a agilidade calculista. Gostam de jogos de estratégias e matemáticos. Conheci alguns que eram alucinados por literatura de grandes Estadistas e pensadores. Já na fase adulta, as coisas tomam uma característica mais séria, aquela jovialidade se perde com facilidade e resta astúcia de uma índole fria, irônica e diplomática, que muitas vezes chega à superficialidade emocional. Seu interesse é o poder, o status, a liderança, o comércio, o conselho, a análise, a política e os ideais.


Um rei é para os outros



Figura 2: Tarô Fenestra

Fonte: http://www.albideuter.de/html/fenestra_63.html


E no relacionamento afetivo? Prepare-se para ter segurança e influência, ele pensa em tudo nos mínimos detalhes, é galanteador e cordial, conquista facilmente pela persuasão e jamais esquece datas. Dono de um caminhar incomparável, ele desfila postura e elegância, sempre fiel a tradição do armário clássico e do moderno retrô. Adora dar presentes caros e jantares com amigos em ambiente públicos – em casa nem tanto. Porém, é distante do calor humano e pode passar sozinho por horas, simplesmente porque precisa amadurecer uma ideia. Sexualmente, é mental e rápido, espirituoso, do tipo que curte falar, preferem um bom papo! O cotidiano sexualmente falando, é convencional e ditador. Cheio de normas. Se quiser ganhar um deles, diga-lhes que são perfeitos e que tem fantasias relacionadas aos seus ideais e os acompanhe sempre! Com certeza as coisas ficaram mais quentes! E nunca se esqueça de agradecer por tudo.






Competências ou habilidades

Figura 3: Tarô Visconti Sforza

Fonte: http://www.albideuter.de/html/visconti-los_42.html


Estamos de frente para um líder nato e com todas as potencialidades de quem nasceu para o comando. Tem o raciocínio intrinsecamente ativo e sabe explorar um tema até seu íntimo. Então é comum encontrar essa figura como delegado, juiz, advogado, diplomata, oficial de justiça, líder comunitário, Estadista, comunista, pastor, reitor, acadêmico, filósofo, negociador, gerente, administrador e até segurança.
Os Reis de Espadas, quando dispersos, são verdadeiros “Charlatões da sinceridade” e gozadores, como diz Álvaro de Campos (1917) em seu poema. Quem direciona o Rei de Espadas é O Imperador e A Justiça, mas se ele cai nas ondas do Diabo, teremos aí um “semideus” absoluto, intolerante e repressor, ou seja, déspota!







Total ao objetivo adequado


Talvez seja conveniente falar das investidas mais claras que levam um complexo Rei de Espadas ao equilíbrio, a satisfação e consciência ampla e digna de uma personalidade empírica por excelência. Espirituosamente. Assim deve ser a mente sóbria do Rei da Razão, para que seja harmoniosa, limpa e funcional. Abandonar o medo a um antigo credo – “a melhor defesa é o ataque” – e substituí-lo pelo entendimento de que a melhor defesa é a exposição de seus verdadeiros sentimentos, por mais que seja frio. De nada adianta declamar perspicácia sem se dar verdadeiramente aos outros e receber dos mesmos a parte que falta a essa personalidade, que implica o todo para o tudo. Solidariamente. Reconhecer os objetivos no qual a vida o impõe de redirecionamento de paradigmas.
Aqui me despeço em agradecimento à todos os que me ajudaram a caminhar como um Louco por tantas horas de minha vida. Ao Adash Van Teufel, pela indicação precisa da música Pode agradecer do Jay vaquer. Aos meus amigos do grupo Tarologistas do Facebook e, também, ao Emanuel J. Santos, pela confiança.
Um eterno e reverberado abraço.

Figura 4: Tarô Golden






























terça-feira, 8 de novembro de 2011

Eu quero que você vá






Mulher, casada, pedagoga e mãe.





-Você quer fazer alguma pergunta direcionada ao tarô?

-Quero sim, a respeito das cartas que você mencionou ciúmes, isso é a minha realidade e motivos de minhas brigas com meu marido.

-Como é isso?

-Sou ciumenta, sempre fui não posso me controlar ainda mais quando me dá motivos!

-Tire cinco cartas, de cada leque, sendo que primeiro dos Arcanos maiores...





As imagens para o Pladan



                                                                Tarô Viscont-Sfortza







-Nossa! Eu preciso apascentar essas imagens primárias dentro de mim.

-(risos) Apascentar?

-Sim, leva-las para dentro e nutri-las e também olhar para elas.

-Que lindo isso!

- Como está constituída sua família, a que você formou?

-Eu, minhas três filhas e meu marido.

-Não teve nenhum homem? Só mulheres.

-Bem, tive um menino logo no início, antes de nos casar, mas perdi.

-Aborto?

-Sim, mas tenho isso bem trabalhado internamente.

-Sim, Mas isso Foi acordo comum entre vocês?

-Foi de minha parte, ele só soube depois de feito... Eu não tinha certeza se nos iríamos ficar junto...

-Ok. Vou falar uma frase de impacto com efeito para o esclarecimento. Um aborto sem prévio acordo também aborta o parceiro. Isso é sentido pelo outro como: O que vem de você não presta.

-Nossa senhora! Que forte isso André

-Sim, mas não acredito que isso seja a causa principal de suas pergunta. Você apresenta uma satisfação enorme quando fala de seu ciúme. Você sorri. E também expressa rubor no rosto e orgulho. Seu ciúme se apresenta como uma obrigação pessoal. O que te levou a abortar?

-Na verdade, por causa de uma noiva de meu marido. Não me senti segura de ter o bebê...

-Isso aí! O amor velado. A sacerdotisa/Dois De copas. Vou falar sobre o ciúme dentro da concepção sistêmica e das imagens que o tarô reflete como indicadores. O ciúme quando é sentido de modo à preservação da relação é eficaz. Mas quando ele está vinculado a sentimentos anteriores e também a pessoas anteriores é fatal. O ciúme causa um efeito assim: Eu quero que você vá. Em seu caso a primeira mulher de seu marido ficou só para você desfrutar de seu relacionamento e ainda ao preço vingativo do aborto, a primeira mulher ainda acompanha e é representada em seu casamento. Sua lealdade a ela é a causa de todo ciúme. Esse comportamento é comum entre os casais que se casam a custa de outro possível casamento. Um dos parceiros assume a dor do que fica solteiro, e mantém um desejo inconsciente de ficar como a "abandonada" e manifesta o ciúme para afastar o parceiro. Isso é o ciúme cumprido como obrigação pessoal. Em seu interior você deseja que ele parta para comprir o caminho de ex-noiva.

- Isso é loucura se eu parar para pensar que ela, a ex-noiva é professora de minhas filhas! E eu não tenho ciúme dela. Ela quase nunca encontra meu marido, só em reunião de escola.

-Agora, muitas imagens serão expostas, observe cada uma e deixe-as passarem como um filme por sua mente e assista. E não procure as explicações, apanhe o que te toca. E tenha uma observação para o ciúme, ele é uma pressão que empurra os parceiros para longe um do outro.

- É muita informação, preciso de tempo

- Sim, não tenha pressa, apenas observe...

-Só mais uma pergunta, a ex-noiva tem filho dele?

-Vivo não, eles tiraram um bebê, também no início. Nossa! Isso é de dar medo.

- O caminho certo é o do medo.

-Risos...

-Obrigada.

-Eu que agradeço.



sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Quem são eles?





Mulher, 32 anos, candomblecista, administradora.





-Quero ver minha vida espiritual

-Como é isso para você?

-Não entendi?

-Como isso se manifesta em sua vida real? Está em conflito?

-Nossa! Sempre esteve desde que me entendo por gente, Bem vou te contar uma parte. Sou de Candomblé e estou com nove anos de iniciada, já tive três casas, mas nunca dá certo, sempre acontecem coisas que me afasta de onde estou, por mais que eu goste ou que as coisas estejam dando certo.

-Ok, tire as cartas, escolha cinco cartas dos Arcanos maiores e cinco dos Arcanos maiores.





As imagens para o Peladam





Casa um: O Imperador/ Rainha de Espadas

Casa dois: O sacerdote/ O Cavaleiro de Espadas

Casa três: A Estrela / O Cinco de Espadas

Casa quatro: A Roda da Fortuna/ O Sete de Ouros

Casa Cinco: O Julgamento/ O Dez de Espadas





-Qual é sua religião de origem?

-Minha mãe é católica, não praticante.

-Qual é a religião de seu pai?

-Meu pai é de família judia, mas ele não é praticante, apesar de ser muito radical com isso. Ele nem toca no assunto.

-E seus avós? Católicos e judeus?

-Sim, meus avós por parte de pai são judeus e por parte de mãe católica.

- E qual é sua religião?

- O Candomblé.

-Ok, Qual é a origem de seus avós? De onde vieram?

-Minha mãe conta que minha avó era italiana e meu avô espanhol, se conhecerem no Brasil e se casou. Meus avós por parte de pai estão vivos e são todos de família italiana e meus bisavós eram da Áustria.

-E qual é sua religião? Ou melhor, qual é sua cultura?

-(...)

-Qual dos Guerreiros do candomblé você foi iniciada, qual santo você fez?

-Inhasã.

- A Deusa nômade, rebelde, senhora do afronto que luta por seus mortos. Quem são eles?

-Não entendi, quer dizer, faz sentido, mas não entendo.

-Sua pergunta inicial foi “quero ver minha espiritualidade” e isso é algo que recebemos de nossos antepassados e vem através de nossos pais. Deles nossos primeiros deuses e provedores também receberam nossa cultura e religiosidade, que nos mantém ligados a uma fé maior. Para que você possa ter uma segunda cultura é necessário que você também esteja vinculada e saciada de sua religião, que para mim, é  judaico-cristã, o Candomblé apenas foi uma saía, que teria sido eficaz, caso você entendesse o que fazer Inhasã está representando em sua vida. Como disse: A Deusa nômade, rebelde, senhora do afronto que luta por seus mortos. E novamente  te pergunto, Quem são eles? Esses mortos que ficam no passado, que sempre volta para exigir o que são deles por direito. Olhando os Arcanos que tenho para trabalhar, fica muito claro, para eu ver esse confronto, que certamente está conectado com a guerra em sua família. Vou falar também o que faz um ser humano ser vinculado a uma família. Pertencer a uma família está ligado a passar a vida, quem nasce dentro desse clã, mas também, o risco da vida, com isso quero dizer que as vitimas fatais de nossas família também são nossos patentes. Se um de meus antepassados matou, os o mortos são meus patentes, ou seja, todas as vítimas são vinculadas aos meus antepassados...

-Eu fiz tudo errado?

-Não, você somente tem que reconhecer o que Inhasã representa em sua vida e se religar com sua origem. Essa é a função primordial do Candomblé. Se você observar o que é ensinado por prática dentro dessa cultura, verá que tudo que estou falando tem fundamento tanto para o Asé, quanto para sua vida. Porque giramos anti-horário? Porque batemos cabeça? Porque a hierarquia? Porque a reverencia ao Babalorisá? Porque nosso avô de Santo é maior que nosso pai de santo? Enfim, está aí muito claro é só aplicar em nossa vida.

- Você é de Candomblé?

-Sim, iniciado para Osoguiã...

-Meu Deus!  Coincidência!

-Para mim isso quer dizer assim “com incidência!

-Verdade ( risos) Daqui para frente nada será como antes...

-Que bom!

-Inhasã minha Deusa jamais será a mesma.

-Você jamais será a mesma, ela é imune, é Deusa!

-(Risos)

-Estou impressionada com o tarô!

-Quando o aluno está pronto, o mestre aparce!


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

“Quem não sabe servir, não serve para viver”. O sucesso é saber servir






Homem, trinta e dois anos, cursando direito.



-Quero ver porque nada em meus projetos dão certo, já fiz de tudo nessa vida, mas nada dá certo. É sempre assim, começa tudo bem e depois não fixa, as coisas deslocam sabe? A parada é muito estranha.

-Qual é seu problema em relação a essa questão?

-Porque as coisas não dão certo?

-Deram certo. Mesmo em um período curto. Concorda?

-Não! Dar certo do jeito que estou falando é outra coisa, sabe? Aquela que agente vê por ai, o cara abre um negócio e 10 anos depois você passa e ainda está lá?

Sim, Então você quer saber o porquê seus negócios não são duráveis?

- Pode ser.

-Vamos lá. Pegue do primeiro leque cinco cartas, depois do segundo leque mais cinco.





 Imagem para o Peladam.



Casa um: O Sol/Cinco de Discos

Casa dois: O Julgamento/ Cinco de Copas

Casa três: A Estrela/ Quatro de Copas

Casa quatro: A Sacerdotisa/ Oito de Espadas

Casa cinco: A Imperatriz/ Ás de Copas





-Sua mãe está em seus projetos?

-Só com a parte financeira, mais nada.

-E você acha a parte dela pouca coisa?

-É porque você não conhece a peça, vou te contar só duas façanhas. Minha mãe abandonou meu pai e foi para Brasília com o amante. Como se não bastasse ainda se divorciou e tirou tudo dele.

-Você tinha quantos anos nessa época?

-Uns seis anos, por ai...

-E você viveu com seu pai?

-Sim, Minha mãe nos visitava sempre, mas...

-Me parece que a investida dela deu certo, ainda ao preço de ter tirado tudo de seu pai, ainda assim a fortuna lhe serve, não é?

-Por esse lado sim.

-E seu pai?

-Casou novamente e vive com a mulher dele.

-Ele te ajuda?

-Não! Coitado, tem mais três filhos.

-Vou falar um pouco sobre o sucesso, já ouviu dizer assim: “Que quem não serve para servir não serve para viver?

-Sim, Claro! É um dito popular.

-Então, ter sucesso é saber servir e ser leal a quem o serve, posso perceber que você esteve tempo demais sob a esfera de seu pai e também tomou para si o que a ele pertence. E com isso, o distanciamento de sua mãe. Nosso modelo de servir é a mãe.

É a mãe que passa aos filhos o sucesso e também a resistência. Entenda que todo trabalho consiste em servir ao outro, e esse servir gera uma necessidade de retribuição que é o sucesso. Respondendo a sua pergunta, seus projetos duram pouco tempo porque você não sabe servir, não aprendeu isso com sua mãe, e ainda a julga por fatores que você nem presenciou, como você disse, tinha seis anos. O que não deixa de ser amor, mas um amor unilateral, que serve somente a favor de seu pai. Reconcilie-se com sua mãe, experimente isso como terapia, afinal ela é quem possibilita e banca seus projetos, não é?

-É.

-Faz sentido para você?

-Sentido? faz, mas não consigo perdoar ela...

-Você não tem esse sentimento, isso pertence ao seu pai, deixe essa mágoa com ele. Se você pudesse cobrar isso de sua mãe como seria, me diga como você seria ressarcido dessa mágoa?

-Ela deveria devolver o que tirou dele... Imóveis essas coisas.

-E você acha justo que fracasse sempre para compensar valores que sua mãe supostamente deve ao seu pai? Não seria mais leal você unir-se a ela e ter a possibilidade de ter sucesso e devolver o sucesso ao seu pai?

- Você fala como se fosse simples (lágrimas)...

-Sim, mas sei que é doloroso, que precisa de tempo e espaço interno para isso, mas também, quero que você saia daqui com algo além da dor, porque cumprir a culpa dos pais só dói nos filhos, por isso te aconselho à deixar isso com ele e desfrutar do sucesso.

-Valeu mesmo, a parada é boa! (Risos)
-Que bom!


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O amor represado e a penitência







Depois de alguns papos e várias leituras do Tarô, aparece um pergunta desafiadora.





- André, eu quero ver uma coisa. Tenho a doze anos enxaqueca, e isso é um problema na minha vida, às vezes saio da sanidade e penso até que seja algo espiritual... Tem como ver isso no Tarô?

- Sim, preciso te fazer algumas perguntas. Você tem acompanhamento médico?

- Sim, há bastante tempo, mas não melhora, porém analgésico faz passa a dor.

- O que aconteceu de marcante em sua vida há doze anos?

- Meu casamento.

- Ok. Agora tire cinco cartas dos Arcanos Maiores e cinco cartas dos Arcanos Menores.





As imagens para o Peladam:



  • Casa um: O Enamorado/ Ás de Copas
  • Casa dois: O Sol/ Rainha de Ouros
  • Casa três: A Sacerdotisa/ Dois de Copas
  • Casa quatro: O Mago/ Nove de Copas
  • Casa Cinco: O Eremita/ Três de Espadas





- Você já ouviu o médico dizer que suas dores são de fundo emocional?

- Muitas vezes, mas ouço mais de minha terapeuta.

- Vai ouvir do Tarô também (risos), mas tenho uma imagem e vou optar a falar sobre ela. Tenho observado que dor de cabeça constante está relacionada com amores represados, memória e esquecimento, mas o corpo e a vida, assim como o amor, não esquecem nada. Você tem um grande amor? Alguém que caiu no esquecimento?

- Prefiro não falar sobre isso, eu lutei anos contra esse sentimento...

- Ok. Podemos ir para outra pergunta, mas uma coisa, deixe o amor fluir, não pertence a você e ele deve ir para quem o pertence.

- Quero rever uma questão sobre meu trabalho...


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Quem se dá mais





 Mulher, 32 anos.

-Quero ver meu casamento.

-Ok. Escolha 5 (cinco) Cartas de cada leque, sendo que, primeiro dos Maiores e, em seguida, os Menores.

-Com qualquer mão?

-Sim, sinta-se livre quanto a isso!

Então, ela começou com a mão direita, e depois, passou para esquerda enquanto pegava os Menores.



As imagens para o Peladan.



A casa um: A Torre/ Dez de Paus

A casa dois: A Imperatriz/ Valete de Copas

A casa três: O Sol/ Seis de Discos

A casa quatro: O Mundo/ Quatro de Espadas

A casa cinco: O Eremita/Cavaleiro de Copas

Tarô Visconti-Sforza, 1450
                                                        

-Me responda: a separação é um assunto constante para vocês?

-Sim, já falamos sobre isso, mas não faz sentido, nos amamos, o sexo é bom, mas brigamos muito por causa de meus filhos. Ele é muito radical quanto à minha postura. Sempre me critica. Acha que sou super mãe. Ele teve uma vida diferente, perdeu os pais cedo demais, é afastado dos irmãos...

-Como está constituída sua Família?

-Como assim?

-Quem faz parte dela?

-Eu, meu marido e meus dois filhos - um de oito anos e outro de doze anos. Sendo que eles são filhos de meu primeiro marido.

-Você e seu atual marido não tiveram filhos?

-Não, eu fechei a fábrica...

-Vou te fazer um pergunta: quem se dá mais em seu relacionamento?

-Eu, com certeza! Tenho que trabalhar, cuidar dos meninos, cuidar dele, cuidar da casa...

-Ok. Ele se dá mais que você. Sua vida tem mais peso que a dele dentro de seu relacionamento.
Você tem seus filhos, não é verdade? Vocês são três e ele somente um.
Então, quem se dá mais? Se você que continuar com seu casamento, é bom que haja com esse reconhecimento, que sua parcela de peso é maior que a dele. Ou seja, ele para compensar três, se dá em triplo para o relacionamento. Faz sentido para você?

-Meu Deus! Claro!

-Você pode olhar as imagens, a carta do meio, O Eremita olha para A Torre. E, te pergunto, quem olha para ele? A Imperatriz está com o Valete e sendo olhada pelo Cavaleiro e o Cavaleiro olha para o Valete. Percebe isso?

-Sim, formamos um núcleo e é assim mesmo André, só estamos bem quando as crianças não estão.

- Sim, geralmente acontece isso.

-E o que eu faço?

-Se de um pouco mais para ele. E, outra coisa, você tem fotos do pai das crianças em sua casa em algum lugar de destaque?

-Não!

-Procure uma foto do pai deles e dê um lugar de destaque em sua casa, pois esse reconhecimento é importante para sua família.

-Eu tenho em álbuns...

-Em álbuns, a história fica escondida. Faça um lugar em que sua família esteja em ordem, pode ser porta-retrato. Seu primeiro marido, você e seus filhos, logo em seguida, e, em outro lugar, você e seu atual marido.

-Vou fazer isso! Gostei (risos)!

sábado, 8 de outubro de 2011

Reposta do tarô por uma visão sistêmica.





“Uma relação sem o casamento é feri-se continuamente”

                                                     Bert Hellinger





Tenho um caso para compartilhar com meus amigos. Uma mulher de 45 anos, depois de uma leitura geral das cartas, lhe pergunto se gostaria fazer alguma pergunta direcionada ao tarô.

-Quero sim, ver minha vida emocional

-Como é isso? Você tem um relacionamento e gostaria de ver como ele está nesse momento?

-Sim

-Ok, tire 10 cartas, sendo que cinco dos maiores e cinco dos menores

Então, maravilhosamente o Tarô como sempre claro e direto, me dá a seguinte configuração para o Peladan.


                                                                 Tarô  Visconti-Sforza



Casa um A Lua/ Dois de Espadas

Casa dois: O Papa/ Sete de Paus

Casa três: O Enamorado/ Ás de Paus

Casa quatro: A Morte/ Quatro de ouros

Casa cinco: A Imperatriz/ Sete de Copas



-Você é casada?

-Sim, nove anos e tenho dois filhos, um casal

-Casou-se legalmente?  E também religiosamente?

-Não, se eu me casar perco minha pensão, não é algo tão simples.

-E seu romance não vai bem, não é?

-Sim, na verdade vai muito ruim mesmo, nos estamos tão distante que dói, não nos olhamos

-Você e ele precisam se casar, um relacionamento passa para maturidade com o casamento. Ele pode manter sua Família?

- Sim, perfeitamente

-Você preferiu casar-se com a pensão de seu pai, não foi?

-Nossa! Forte isso, mas faz muito sentido e é uma coisa que nunca foi falado, mas quando o assunto aparece , somos tomados por um silêncio.

-Sim, é assim mesmo, o tema fica velado

-Mais alguém em sua família não se casou?

-Sim, minha mãe, teve que provar para a justiça que era esposa de meu pai, minha mãe era a segunda mulher do meu pai e  não teve tempo de se casar com ele...

-ok, então se case com seu marido e desfrute do tempo que vocês têm. E observe tudo que foi esclarecido com o tarô

-Nossa! André, que loucura!

-A solução simples parece loucura, Um grande terapeuta alemão o Bert Hellinger diz o seguinte: “Um relacionamento afetivo que vive muito tempo sem o casamento um diz ao outro: Estou procurando algo melhor. Isso é ferir-se continuamente”

- Estou chocada, estranho isso

-Sim, você está conhecendo agora...


terça-feira, 16 de agosto de 2011

Clarice e o Tarot

"Ah viver é tão desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não pára, viver parece ter sono e não poder dormir - viver é incômodo. Não se pode andar nu nem de corpo nem de espírito.”

Clarice Linspctor

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Mundo

Vilarejo
Marisa Monte



Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraiso se mudou para lá
Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for

O Julgamento

Deus lhe pague
Chico Buarque

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer, e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí"
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague

O Sol

Solar
Milton Nascimento e Fernando Brant

Venho do sol
A vida inteira no sol
Sou filha da terra do sol
Hoje escuro
O meu futuro é luz e calor
De um novo mundo eu sou
E o mundo novo será mais claro
Mas é no velho que eu procuro
O jeito mais sábio de usar
A força que o sol me dá
Canto o que eu quero viver
É o sol
Somos crianças ao sol
A aprender e viver e sonhar
E o sonho é belo
Pois tudo ainda faremos
Nada está no lugar?
Tudo está por pensar
Tudo está por criar
Saí de casa para ver outro mundo, conheci
Fiz mil amigos na cidade de lá
Amigo é o melhor lugar
Mas me lembrei do nosso inverno azul
Eu quero é viver o sol
É triste ter pouco sol
É triste não ter o azul todo o dia
A nos alegrar
Nossa energia solar
Irá nos iluminar
O caminho

A lua

Sem Fantasias
Chico Buarque

Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer
Vem, por favor não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou te envolver nos cabelos
Vem perde-te em meus braços
Pelo amor de Deus
Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu
Ah, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar
Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus

A Estrela

O que é, O que é
Gonzaguinha

Eu fico
Com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...
Viver!
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz...
Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita...
E a vida!
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida
De um coração
Ela é uma doce ilusão
Hê! Hô!...
E a vida
Ela é maravilha
Ou é sofrimento?
Ela é alegria
Ou lamento?
O que é? O que é?
Meu irmão...
Há quem fale
Que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo...
Há quem fale
Que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor...
Você diz que é luxo e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer...
Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser...
Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte...
E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...

A Torre

Rosa de Hiroshima
Vnícius de Morais e Gerson conrrad

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

O Diabo

Quero mais
Angela Roro e Ana Terra

Quero mais
Uma fatalidade um jazz.
Um raio me cortando, um gás
Me embriagando faz
Um terremoto em mim
Da guerra quero sim
Só aprender a paz
Para que eu não enlouqueça
Me rouba a razão
Para que eu não adoeça
Me mata de paixão
O amor é ódio, coração
Quero insana mais uma ilusão
Quero sim
Me travestir de querubim
Me enxovalhar num botequim
Numa alegria enfim
Me abandonar em mim
Delírio sem ter fim
Eterno tanto faz
Para que eu não enlouqueça
Me rouba a razão
Para que eu não adoeça
Me mata de paixão
O amor é ópio coração
Quero insana, mais uma ilusão

A Temperança

Infinito particular
Arnaldo Antunes e Marisa Monte

Eis o melhor e o pior de mim
O meu termômetro, o meu quilate
Vem, cara, me retrate
Não é impossível
Eu não sou difícil de ler
Faça sua parte
Eu sou daqui, eu não sou de Marte
Vem, cara, me repara
Não vê, tá na cara, sou porta bandeira de mim
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular
Em alguns instantes
Sou pequenina e também gigante
Vem, cara, se declara
O mundo é portátil
Pra quem não tem nada a esconder
Olha minha cara
É só mistério, não tem segredo
Vem cá, não tenha medo
A água é potável
Daqui você pode beber
Só não se perca ao entrar
No meu infinito particular

O arcano sem nome, A Morte

Bem leve
Marisa Monte

Bem leve leve, releve,
Quem pouse a pele em cima de madeira
Beira beira, quem dera, mera mera, cadeira
Mas breve breve, revele
Vele, vele quem pese, dos pés à caveira
Dali da beira uma palavra cai no chão, caixão
Dessa maneira,
Uma palavra de madeira em cada mão,
Imbuia, Cerejeira
Bem leve leve, releve,
Quem pouse a pele em cima de madeira
Beira beira, quem dera, mera mera, cadeira
Mas breve breve, revele
Vele vele quem pese dos pés à caveira
Jacarandá, Peroba, Pinho, Jatobá, Cabreúva, Garapera
Uma palavra de madeira cai no chão
Caixão, dessa maneira

O Pendurado

Tocando em frente
Almir Sater

Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte,
Mais feliz, quem sabe
Eu só levo a certeza
De que muito pouco sei,
Ou nada sei
Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs
É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada, eu vou
Estrada eu sou
Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs
É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Todo mundo ama um dia,
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
E no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua historia
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
De ser feliz
Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs
É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Cada um de nós compõe a sua historia
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
De ser feliz

A Força

Vaca Profana
Caetano Veloso

Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada
Inscrevo, assim, minhas palavras
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da man...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas
Segue a "movida Madrileña"
Também te mata Barcelona
Napoli, Pino, Pi, Paus, Punks
Picassos movem-se por Londres
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horiz...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca de divinas tetas
La leche buena toda en mi garganta
La mala leche para los "puretas"
Quero que pinte um amor Bethânia
Stevie Wonder, andaluz
Como o que tive em Tel Aviv
Perto do mar, longe da cruz
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk`s blues
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk`s...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca das divinas tetas
Teu bom só para o oco, minha falta
E o resto inunde as almas dos caretas
Sou tímido e espalhafatoso
Torre traçada por Gaudi
São Paulo é como o mundo todo
No mundo, um grande amor perdi
Caretas de Paris e New York
Sem mágoas, estamos aí
Caretas de Paris e New York
Sem mágoas estamos a...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Quero teu leite todo em minha alma
Nada de leite mau para os caretas
Mas eu também sei ser careta
De perto, ninguém é normal
Às vezes, segue em linha reta
A vida, que é "meu bem, meu mal"
No mais, as "ramblas" do planeta
"Orchta de chufa, si us plau"
No mais, as "ramblas" do planeta
"Orchta de chufa, si us...
Ê, ê, ê, ê, ê,
Deusa de assombrosas tetas
Gotas de leite bom na minha cara
Chuva do mesmo bom sobre os caretas

A roda da Fortuna

Todo cambia
Mercedes Sosa

Todo Cambia

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Pero no cambia mi amor...  

Todo Cambia

Muda o superficial
Muda também o profundo
Muda o modo de pensar
Muda tudo neste mundo

Muda o clima com os anos
Muda o pastor e seu rebanho
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho

Muda o mais fino brilhante
De mão em mão seu brilho
Muda o ninho o passaro
Muda a sensação de um amante

Muda o rumo do andarilho
Ainda que isto lhe cause dano
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho

Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda

Muda o sol em sua corrida
Quando a noite o substitui
Muda a planta e se veste
De verde na primavera

Muda a pelagem a fera
Muda o cabelo o ancião
E assim como tudo muda
Que eu mude não é estranho

Mas não muda meu amor
Por mais longe que eu me encontre
Nem a recordação nem a dor
De meu povo e de minha gente

O que mudou ontem
Terá que mudar amanhã
Assim como eu mudo
Nesta terra tão longinqua

Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda
Muda tudo muda

Mas não muda meu amor...

O Heremita

Casa no campo
Zé Rodrix e Tavito


Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais

A Justiça

A força que nunca seca
Chico César e Vanessa da Matta

Já se pode ver ao longe
A senhora com a lata na cabeça
Equilibrando a lata vesga
Mais do que o corpo dita
O que faz e equilíbrio cego
A lata não mostra
O corpo que entorta
Pra lata ficar reta
Pra cada braço uma força
De força não geme uma nota
A lata só cerca, não leva
A água na estrada morta
E a força nunca seca
Pra água que é tão pouca

A Carruagem

Sonho impossível
Chico Buarque

Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

Os Enamorados

O que será?
Chico Buarque

O que será, que será?
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
E gritam nos mercados que com certeza
Está na natureza
Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho...
O que será, que será?
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos dos desvalidos
Em todos os sentidos...
Será, que será?
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido...
O que será, que será?
Que todos os avisos não vão evitar
Por que todos os risos vão desafiar
Por que todos os sinos irão repicar
Por que todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno vai abençoar
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo...(2x)
Lá lá lá lá lá……..

Hierofante

Cálice
Chico Buarque e Gilberto Gil

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...(2x)
Como beber
Dessa bebida amarga
Tragar a dor
Engolir a labuta
Mesmo calada a boca
Resta o peito
Silêncio na cidade
Não se escuta
De que me vale
Ser filho da santa
Melhor seria
Ser filho da outra
Outra realidade
Menos morta
Tanta mentira
Tanta força bruta...
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...
Como é difícil
Acordar calado
Se na calada da noite
Eu me dano
Quero lançar
Um grito desumano
Que é uma maneira
De ser escutado
Esse silêncio todo
Me atordoa
Atordoado
Eu permaneço atento
Na arquibancada
Prá a qualquer momento
Ver emergir
O monstro da lagoa...
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...
De muito gorda
A porca já não anda
(Cálice!)
De muito usada
A faca já não corta
Como é difícil
Pai, abrir a porta
(Cálice!)
Essa palavra
Presa na garganta
Esse pileque
Homérico no mundo
De que adianta
Ter boa vontade
Mesmo calado o peito
Resta a cuca
Dos bêbados
Do centro da cidade...
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...
Talvez o mundo
Não seja pequeno
(Cale-se!)
Nem seja a vida
Um fato consumado
(Cale-se!)
Quero inventar
O meu próprio pecado
(Cale-se!)
Quero morrer
Do meu próprio veneno
(Pai! Cale-se!)
Quero perder de vez
Tua cabeça
(Cale-se!)
Minha cabeça
Perder teu juízo
(Cale-se!)
Quero cheirar fumaça
De óleo diesel
(Cale-se!)
Me embriagar
Até que alguém me esqueça
(Cale-se!)

O Imperador

Podres Poderes
Caetano Veloso

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Motos e fuscas avançam
Os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais...
Queria querer gritar
Setecentas mil vezes
Como são lindos
Como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais...
Será que nunca faremos
Senão confirmar
A incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que esta
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Índios e padres e bichas
Negros e mulheres
E adolescentes
Fazem o carnaval...
Queria querer cantar
Afinado com eles
Silenciar em respeito
Ao seu transe num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau...
Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...
Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais...
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo
Indo e mais fundo
Tins e bens e tais...
Será que nunca faremos
Senão confirmar
Na incompetência
Da América católica
Que sempre precisará
De ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que essa
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos...
Ou então cada paisano
E cada capataz
Com sua burrice fará
Jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais...
Será que apenas
Os hermetismos pascoais
E os tons, os mil tons
Seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão
Dessas trevas e nada mais...
Enquanto os homens
Exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais
Eu quero aproximar
O meu cantar vagabundo
Daqueles que velam
Pela alegria do mundo...
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!
Indo mais fundo
Tins e bens e tais!